“Meu bebê chora muito. Deve ser cólica.”

“Ele regurgita bastante. É refluxo.”

“Faz muita força para fazer cocô. Será que é disquesia?”

Essas são dúvidas extremamente comuns entre as famílias  e existe uma razão para tanta confusão: os sintomas gastrointestinais dos bebês podem ser muito parecidos entre diferentes condições.

Mas existe uma diferença importante entre observar um sintoma e estabelecer um diagnóstico. O mesmo sintoma pode aparecer em situações diferentes: choro, irritabilidade, gases, regurgitação, esforço para evacuar e desconforto são manifestações frequentes durante os primeiros meses de vida. Isso significa que nenhum desses sinais, isoladamente, permite concluir que um bebê tem APLV, refluxo patológico, cólica ou outro distúrbio gastrointestinal.

As diretrizes de gastroenterologia pediátrica destacam justamente essa dificuldade: os sintomas atribuídos ao refluxo são inespecíficos e também aparecem em bebês sem doença do refluxo. Por isso, o contexto clínico importa.

 

Refluxo não é necessariamente doença

O refluxo gastroesofágico é a passagem do conteúdo do estômago para o esôfago, podendo ou não provocar regurgitação ou vômito. Em lactentes, isso é extremamente comum e frequentemente faz parte da fisiologia normal. Já a doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) ocorre quando esse refluxo está associado a sintomas que realmente causam impacto ou a complicações. Essa distinção é importante porque regurgitar não significa automaticamente ter DRGE.

 

E a APLV?

A alergia à proteína do leite de vaca é uma reação imunológica e pode apresentar diferentes manifestações. Dependendo do mecanismo e do quadro clínico, podem aparecer sintomas gastrointestinais, cutâneos e respiratórios. O problema é que algumas manifestações se sobrepõem às dos chamados distúrbios gastrointestinais funcionais. A ESPGHAN ressalta que essa sobreposição pode dificultar a diferenciação entre APLV e condições funcionais. Por isso, choro, refluxo, gases ou constipação isoladamente não devem ser usados para “diagnosticar” APLV.

 

E a famosa cólica?

A cólica do lactente é definida por critérios clínicos específicos. Segundo os critérios de Roma IV, trata-se de episódios recorrentes e prolongados de choro, irritabilidade ou fussing, sem causa evidente, em um bebê com menos de 5 meses, sem evidências de doença, febre ou falha de crescimento.

Ou seja:

bebê que chora ≠ automaticamente bebê com cólica.

É preciso olhar o bebê como um todo.

 

E quando o bebê faz muita força para evacuar?

Aqui temos uma confusão bastante comum. Na disquesia do lactente, o bebê pode fazer força, ficar vermelho, chorar e parecer estar com grande dificuldade para evacuar. Mas existe um detalhe fundamental: as fezes são macias. 

Os critérios de Roma IV descrevem a disquesia como pelo menos 10 minutos de esforço e choro antes de uma evacuação bem-sucedida ou malsucedida, em um bebê com menos de 9 meses e sem outro problema de saúde. Isso é diferente de constipação, na qual podemos encontrar fezes endurecidas, evacuações dolorosas e outros critérios específicos.

 

Então por que os diagnósticos são confundidos?

Porque os sintomas se sobrepõem. Um bebê pode chorar porque está desconfortável. Pode regurgitar porque apresenta refluxo fisiológico. Pode fazer força para evacuar porque ainda está aprendendo a coordenar a evacuação. E, em alguns casos, pode existir uma condição que realmente precise de investigação.

Por isso, o caminho não deveria ser:

“Qual diagnóstico explica esse sintoma?”

Mas sim:

“O que está acontecendo com esse bebê?”

História clínica, alimentação, crescimento, padrão das fezes, comportamento, sono, desenvolvimento e sinais associados ajudam a construir esse raciocínio.

E quando existe suspeita de doença ou presença de sinais de alerta, a avaliação médica é fundamental.

 

E onde entra a fisioterapia e a osteopatia?

Aqui é importante estabelecer limites claros. Fisioterapia e osteopatia não diagnosticam APLV e não substituem o tratamento médico ou nutricional.

O papel da fisioterapia pediátrica é avaliar aspectos que fazem parte da sua competência como postura, movimento, mobilidade, função e repercussões musculoesqueléticas e atuar quando existem essas alterações que podem estar correlacionadas.

Na Essera, esse olhar faz parte de uma avaliação individualizada e, quando necessário, do trabalho conjunto com outros profissionais.

Porque cuidar de um bebê não é escolher um diagnóstico rapidamente.
É entender o bebê por inteiro.